Tarde Nacional - Rio de Janeiro
Renato Noguera fala sobre seu novo livro "Medo e raiva"

O professor da UFRRJ, Renato Noguera , que também atua como pesquisador, escritor e celebrante de casamento acaba de lançar o livro "Medo e raiva: o que os mitos e as filosofias revelam sobre nossos afetos sombrios"
Ele, que também é doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e professor do Departamento de Educação e Sociedade da UFRRJ defende que medo e raiva não são inimigos. Em seu novo livro, o pensador propõe a explicar sobre os afetos que fomos ensinados a esconder
Em um momento em que discursos de autoajuda ensinam a "gerenciar" emoções e algoritmos recomendam gratidão como resposta para todos os problemas, o livro, publicado pela HarperCollins propõe uma inversão radical: ao invés de tratar medo e raiva como falhas a corrigir, o leitor é convidado a reconhecê-los como formas legítimas de conhecimento, como bússolas que orientam, protegem e revelam o que a razão ainda não viu.
Medo e raiva não é um manual de autoajuda ou de autocontrole emocional. Noguera atravessa nove tradições mitológicas distintas (iorubá, tupi-guarani, hindu, greco-romana, judaico-cristã, japonesa, inuíte, kemita e romena), não para compará-las de forma superficial, mas para revelar como culturas radicalmente diferentes elaboraram, através de seus mitos ancestrais, as mesmas experiências afetivas fundamentais da existência humana. Ogum ensina que precisamos escutar a raiva, ou ela pode nos destruir e a quem amamos. Anhangá e Curupira revelaram que o medo e a fúria são também ética ambiental e cosmológica. Kali, com sua língua de sangue, e Durga, com sua fúria justa, ensinaram que a destruição também pode ser regeneradora. Medusa, aqui, não é monstro: é a potência de quem recusa se fragmentar para agradar.
O resultado é uma obra multidisciplinar de grande fôlego, juntando psicologia, neurociência, psicanálise e ancestralidade. Enquanto dialoga com Freud, Nietzsche, Espinosa e Derrida, Renato também traz as visões de Ailton Krenak, Nêgo Bispo e Davi Kopenawa para a conversa. Medo e raiva percorre um caminho em direção a uma "descolonização dos afetos" ao romper com uma lógica colonial e ocidental que divide os sentimentos entre "nobres" (como amor, alegria e gratidão) e "suspeitos" (como raiva e medo). Noguera defende que a nossa sociedade trata esses afetos como intrusos e os reprime, empurrando-os para as sombras onde crescem distorcidos e destrutivos.
O autor traz uma crítica direta à positividade tóxica que marca boa parte das pedagogias emocionais contemporâneas. No entanto, Medo e raiva não oferece receitas nem promessas de cura, apenas nos convida à escuta destes sentimentos “sombrios” para que possamos dançar com eles, ao invés de derrotá-los, conforme ressalta o psicólogo Christian Dunker em seu prefácio.
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