Nacional Jovem
Saúde mental de jovens em alerta: traumas, redes sociais e falta de apoio agravam transtornos
Psiquiatra do CEJAM explica como fatores como violência, exclusão social e uso precoce de drogas impactam o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram um cenário preocupante: um em cada sete jovens entre 10 e 19 anos sofre com algum transtorno mental. Depressão, ansiedade e distúrbios comportamentais estão entre as principais causas de incapacidade nessa fase da vida.
Em entrevista ao programa Nacional Jovem, da Rádio Nacional da Amazônia, a Dra. Carla Vieira, psiquiatra do CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” – explica que os transtornos mentais na infância e adolescência são resultado de uma combinação complexa de fatores genéticos, ambientais, sociais e psicológicos.
Um estudo da Faculdade de Medicina da USP em parceria com a Universidade de Bath revelou que mais de 80% dos jovens brasileiros já vivenciaram ao menos um evento traumático até os 18 anos. Ainda que a genética tenha influência, Dra. Carla ressalta que o ambiente – marcado por exclusão, negligência institucional, insegurança econômica e, mais recentemente, o isolamento social durante a pandemia – costuma ser o principal gatilho para o surgimento ou agravamento dos transtornos.
Outro ponto de atenção é o uso precoce de álcool e drogas. A psiquiatra alerta que o consumo de substâncias como maconha antes dos 15 anos está relacionado ao risco de neurotoxicidade e alterações em circuitos cerebrais. “Jovens em sofrimento emocional, muitas vezes sem diagnóstico, buscam nas drogas uma forma de alívio. Isso agrava ainda mais a situação”, afirma.
As redes sociais também são fator de risco para adolescentes emocionalmente fragilizados. “O ambiente digital pode acentuar sentimentos de inadequação, estimular comparações e facilitar o acesso a conteúdos prejudiciais. O cyberbullying, por exemplo, está diretamente ligado a casos de automutilação e ideação suicida.”
Entre os sinais de alerta estão mudanças bruscas de comportamento, irritabilidade, isolamento, queda no desempenho escolar, automutilações e falas sobre morte. “Esses sintomas devem ser levados a sério e acompanhados por profissionais da saúde mental”, reforça.
Dra. Carla defende que o estigma em torno da saúde mental ainda é uma das maiores barreiras para o diagnóstico e o tratamento. “O preconceito faz com que muitas famílias evitem buscar ajuda, o que contribui para o agravamento dos quadros. Tratar a saúde mental como prioridade é essencial para garantir o futuro dessa geração.”
No CAPS Infantojuvenil, crianças de 5 a 10 anos representam a maior parte dos atendimentos, com predominância de casos de autismo, TDAH e transtornos de conduta. O modelo de cuidado inclui atendimentos individuais, em grupo e suporte familiar, com equipe multiprofissional. E o melhor: os CAPS funcionam como “portas abertas”, sem necessidade de agendamento prévio ou encaminhamento.
Ouça no player acima a entrevista na íntegra.
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