Tarde Nacional - São Paulo
Radar Sonoro homenageia Moacir Santos
Colunista Sarah Quines destaca momentos importantes da vida e da carreira de Moacir Santos, que chegou a trabalhar na Rádio Nacional e faria 100 anos neste domingo (26)

Foto: Arquivo Nacional/Wikimedia Commons
A coluna Radar Sonoro desta sexta-feira (24) presta homenagem ao compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro Moacir Santos, que completaria 100 anos no próximo domingo (26). A jornalista Sarah Quines ressalta que ele deixou uma extensa obra que se destaca pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz. Mesmo assim, ele ainda não tem tanto reconhecimento no Brasil.
Nascido em 26 de julho de 1926, na região de Serra Talhada, sertão pernambucano, o maestro aprendeu a tocar os instrumentos de banda marcial ainda criança. Em depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC, em 2016, Moacir Santos relembra os primeiros contatos com a música.
“Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda, de música da cidade. Lá em Flores, uma cidade assim muito subdesenvolvida, era muito natural os meninos andarem nus, sem roupinha, até lá pelos 9, 10 anos de idade. Então eu com 10 anos, tinha minha banda de meninos nus no meio da rua, tocando a marchinha. Então esse foi meu contato com música”, conta.
Na adolescência, o músico fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm uma importância na formação do país e que Moacir Santos veio dessa tradição.
“No Brasil Império, quase que a totalidade de músicos no país eram pessoas negras. Então as bandas eram o rádio da cidade, dos eventos de domingo. Então, o Moacir vem dessa tradição. Ao chegar aos grandes centros, ele já veio com essa tradição e ele acrescentou a isso, os estudos mais aprofundados”, afirma.
Das rádios às aulas
Em João Pessoa, Moacir foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948 e, três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.
Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe, e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros. Andrea Ernest Dias, flautista e pesquisadora da obra do maestro, autora do livro “Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro”, conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical - o que fez com que músicos mais jovens quisessem aprender com o mestre.
“Para quem queria se aprofundar um pouco, sair do campo da intuição musical e saber, o Moacir fazia essa ponte entre a erudição e o popular. Ele se tornou professor de muita gente, entre eles Roberto Menescal, Carlos Lira e Nara Leão”, explica.
Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes - parte delas lançadas no álbum “Coisas”, de 1965. Considerado sua obra-prima, o trabalho reúne 10 composições, todas intituladas “Coisa” seguida da numeração.
Sucesso internacional
Em 1967, Moacir Santos deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde deu aulas e compôs trilhas de cinema nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 1970, lançou álbuns pela renomada gravadora de jazz Blue Note, entre eles, “Maestro”, indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias fala sobre o mojo, inovação trazida por Moacir neste trabalho.
“O mojo é uma espécie de síntese, um sistema que ele criou, muito swingado, uma coisa que a gente ouve e imediatamente fala: ‘Isso aí é ritmo do Moacir, né?’ Ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformava esse ritmo num grande balanço, numa marca pessoal mesmo. O disco 'Maestro' marcou uma nova etapa na vida do maestro Moacir Santos. Um disco realizado nos Estados Unidos e que traz ritmos intrigantes.”
Reconhecimento no Brasil
Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival, e tocou na abertura do evento ao lado de Radamés Gnatalli. A obra do maestro foi revisitada pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet, no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum “Ouro Negro” foi a porta de entrada para a obra do músico para ouvintes como o Allan Abbadia.
“Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos da cultura afro-brasileira e da nossa oralidade. Uma das características mais marcantes dele é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora africana. Então, ele junta várias dessas expressões com a música erudita. E ele conseguiu trazer essa essência da música afro-brasileira, afro-diaspórica, sem se tornar folclórico.”
Homenagens
Vinícius de Moraes, parceiro das composições “Menino travesso” e “Se Você Disser que Sim”, homenageou Moacir Santos nos versos do “Samba da benção”.
O músico morreu em 2006, aos 80 anos, em Los Angeles, onde morava, em decorrência de um derrame. Passados 20 anos desde sua partida, o centenário de nascimento de Moacir Santos em 2026, é uma oportunidade de reverenciar sua obra, que soube fundir tão bem ancestralidade e modernidade.
Neste ano, já aconteceram alguns eventos em comemoração ao centenário de Moacir Santos. No mês de agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo, como parte do projeto “Dentro do Som”.
Ouça mais no player acima.
Dê sua opinião sobre a qualidade do conteúdo que você acessou.
Escolha sua manifestação em apenas um clique.