Tarde Nacional - São Paulo
Radar Sonoro: confira homenagem ao "bruxo" Hermeto Pascoal
Sarah Quines conta um pouco da sensibilidade extraordinária que o alagoano tinha para perceber a musicalidade em tudo ao seu redor

No Radar Sonoro desta semana, Sarah Quines fala sobre as primeiras gravações do gênio da música que nos deixou no sábado passado: Hermeto Pascoal, o alagoano de Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, que morreu em decorrência de complicações de fibrose pulmonar, aos 89 anos.
Foram 75 anos de carreira de alguém que não apenas ouvia ou fazia música. Hermeto Pascoal tinha uma sensibilidade extraordinária para perceber a musicalidade em conversas, no barulho do trânsito, em sons banais que, aos ouvidos do bruxo da música, se transformavam em melodia.
No ano passado, Hermeto Pascoal lançou o disco “Pra Você, Ilza” em homenagem à companheira dele por quase 50 anos. Ao lado do grupo, Hermeto seguia em turnê; nos últimos meses se apresentou na Europa, e o último show dele aqui no Brasil foi no palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, em junho, alguns dias antes de completar 89 anos.
Toda a inventividade atribuída a Hermeto Pascoal não é à toa. Ele realmente teve um papel muito ímpar na música feita no Brasil, com impacto no mundo todo. Só para citar um pequeno exemplo: há um vídeo que já circulou bastante pela internet de uma gravação do começo dos anos 80, em que Hermeto e outros músicos estão dentro de uma lagoa tirando som de garrafas, na faixa conhecida como “Música da Lagoa”.
Multi-instrumentista, Hermeto Pascoal começou a tocar acordeon ainda criança. Trabalhou como músico em rádios de Recife e João Pessoa, onde fez parte de orquestras mesmo sem saber ler partituras — tirava tudo de ouvido.
Tocou em conjuntos no Rio de Janeiro e, depois, nos anos 60, já morando em São Paulo, tocava piano em boates. Há uma história de que ele foi confundido com Sivuca por alguém que procurava um baixista e, mesmo sem nunca ter tocado baixo antes, se prontificou e tocou o instrumento.
Ainda nos anos 60, antes do trabalho solo e da formação do próprio grupo, Hermeto já tinha uma trajetória de gravações com outros músicos, que começa com o Conjunto Som 4, ao lado de Edilson, Azeitona e Papudinho. Integrou também o Sambrasa Trio, no piano, ao lado de Humberto Clayber no baixo e Airto Moreira na bateria. Eles lançaram apenas um disco, em 1965, chamado “Em Som Maior”, samba jazz em onze faixas.
Recuperando aqui a trajetória do músico alagoano, em 67, o bruxo se juntou a Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira no Quarteto Novo, grupo instrumental que acompanhava Geraldo Vandré em shows e lançou seu único trabalho pela gravadora Odeon. Com Hermeto no piano e na flauta, há duas composições dele em parceria com Geraldo Vandré: “O Ovo” — faixa de abertura — e “Canto Geral”.
Em 69, ao lado do guitarrista Lanny Gordin, fez parte do Brazilian Octopus, um grupo criado para sonorizar os desfiles de uma fabricante de tecidos e que lançou apenas um disco, muito elogiado.
Teve a ida dele para os Estados Unidos, a convite de Airto Moreira, para fazer os arranjos de um disco do amigo, e foi nessa ocasião que conheceu e gravou com Miles Davis composições de Hermeto nas quais ele não foi devidamente creditado.
Em 1970, Hermeto Pascoal gravou seu primeiro disco solo nos Estados Unidos e, em 73, lançou o primeiro trabalho gravado no Brasil: “A Música Livre de Hermeto Pascoal”. O disco traz uma das composições mais bonitas do músico, o baião “Bebê”, além do registro em que ele toca entre porcos e galinhas numa fazenda, na faixa “Sereiarei”, que já havia sido cantada por Alaíde Costa em 72 no Festival Internacional da Canção.
No disco de 84, que leva o nome da sua terra natal, Hermeto Pascoal gravou o som de um papagaio na faixa “Papagaio Alegre”.
E, se num primeiro momento a ideia de gravar sons de animais na música causa estranhamento, é justamente essa a provocação de Hermeto: libertar a música, deixá-la chegar livremente aos nossos ouvidos.
Hermeto deixou o legado de uma música livre, universal: não gostava de rótulos. Em comunicado, o grupo que o acompanhava deixou a seguinte mensagem: "Não deixemos a tristeza tomar conta: escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira, a música universal segue viva… Quem desejar homenageá-lo, deixe soar uma nota no instrumento, na voz, na chaleira e ofereça ao universo. É assim que ele gostaria.”
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